Análise | Oscar 2018

Para quem esperava uma cerimônia grandiosa, por se tratar dos 90 anos do The Academy Awards, conhecido mundialmente como Oscar, certamente se decepcionou. Nenhuma grande surpresa nas premiações, nem um mico da proporção do duelo Moonlight vs. La La Land, registrado em 2017. Porém, foi uma festa grandiosa do ponto de vista social, como poucas vezes a premiação apresentou em sua história.

Depois das polêmicas dos anos anteriores, quando várias acusações foram feitas aos integrantes da academia por ignorarem diversas formas de representações raciais e de gênero, o que se viu na edição de 2018 foi um passo além na construção de uma nova identidade para o Oscar. Desde Greta Gerwig, quebrando um jejum de oito anos sem uma mulher indicada como melhor diretora, até o discurso empoderado de Frances McDormand ao ganhar o prêmio de melhor atriz, foi uma premiação voltada ao que os retrógrados adoram chamar de minorias.

Vejamos: além de Frances, que venceu pela protagonista de Três Anúncios para um Crime, filme que trata basicamente sobre a questão da intolerância (e cuja protagonista é uma das personagens femininas mais fortes, complexas e contundentes da história do cinema), Jordan Peele, indicado como melhor diretor, levou o prêmio de melhor roteiro original por Corra!, um misto de drama, terror e crítica social, com um desenvolvimento tão poderoso que o coloca facilmente como um dos dez melhores filmes sobre o preconceito racial já feitos em Hollywood. E não acaba por aí: o prêmio de roteiro adaptado foi para o trabalho sensível de James Ivory, com Me Chame Pelo Seu Nome, uma história sobre um romance homossexual e sobre aceitação, digno de figurar também como uma das grandes obras sobre o tema já feitas no cinema. The end? Ainda não. A Forma da Água, que  venceu os principais prêmios da noite, de melhor filme e direção, usa de uma metáfora belíssima para falar sobre o romance entre diferentes e o preconceito que os cerca.

E, como se não bastasse, Uma Mulher Fantástica, vencedor de melhor filme estrangeiro, tem, no cerne de sua história, a abordagem da transexualidade, e a atriz protagonista da obra é, verdadeiramente, transexual. Além das indicações de dois atores negros, Daniel Kaluuya e Denzel Washington, na categoria de melhor ator, e de duas atrizes negras, Mary J. Blige e Octavia Spencer, na categoria de atriz coadjuvante.

O discurso conciso de Jimmy Kimmel, apresentador da cerimônia, citando os casos de abuso cometidos por medalhões de Hollywood, mesclando com a polêmica da disparidade salarial entre atores e atrizes e outros temas espinhosos que andaram tomando conta do cenário cultural, foi a cereja do bolo: mostrou que, independentemente do viés conservador do presidente dos EUA (e consequentemente, do mundo atual), a arte se posiciona a favor da mudança de pensamento. E sem precisar chocar, confrontar ou entrar em guerra com o público. Apenas se utiliza do seu real papel: fazer os espectadores pensarem sobre o eu próprio e o seu semelhante. Uma cerimônia sem novidades no campo das premiações, mas no campo da construção social e de um novo pensamento, ela obteve um sucesso poucas vezes visto nesses 90 anos. Que permaneça assim.

P.S.: Único ponto fora da curva: o total desprezo dos integrantes da Academia por Mãe!, obra-prima de Darren Aronofsky e melhor filme de 2017. Totalmente ignorado na 90ª edição, a indicação do filme seria o ponto alto para que essa edição, além de memorável, se tornasse uma referência histórica. Quem sabe, numa próxima…

Henrique Romanine
Henrique Romanine
Henrique, ou Hique, como é conhecido, sempre quis ser jornalista, desde criança. Após passar pelas Artes Cênicas e Ciências Sociais, não conseguiu escapar da real vocação. Apaixonado por cinema, literatura, música e séries, considera a observação a sua grande aliada. Apesar da cara fechada, não escapa de um bom papo.