Crítica | 120 Batimentos por Minuto

A frequência cardíaca considerada normal oscila entre 50 a 100 bpm por minuto. Qualquer índice acima disso, pode ocasionar, além de efeitos como a taquicardia, uma indicação sobre o estado de saúde da pessoa. Partindo desta premissa médica para nomear o seu filme, intitulado 120 Batimentos por Minuto (120 battements par minute, França, 2017), o diretor Robin Campillo desenvolve, a partir do relato sobre a atuação do grupo Act Up (organização destinada a lutar pelos direitos das pessoas que vivem com AIDS), várias facetas de relacionamento entre seus integrantes, sendo soropositivos ou não, e que possuem, em comum, a urgência em lutar pela vida do próximo.

Ele próprio um ex-integrante da Act Up, o diretor Campillo demonstra, através do desenvolvimento da história, um domínio não apenas técnico, mas também humano sobre o delicado tema da AIDS. Ambientado no início dos anos 90, o filme mostra a organização francesa (conhecida por realizar atos radicais, porém sem o uso da violência, para conscientizar sobre a prevenção e lutar por novas formas de tratamento) como o principal personagem da trama, mas isso não transforma o filme em um tratado político. Campillo vai desmembrando, pouco a pouco, as personalidades de cada um dos integrantes da organização, e a grande força do roteiro está em não apresentar esses personagens de maneira superficial, o que é positivo para não traduzí-los em figuras caricatas. O que se vê pela tela são pessoas notadamente humanas, com suas raivas, frustrações, anseios, sonhos e medos, levando o espectador a se identificar imediatamente com cada um dos personagens apresentados no desenrolar.

A primeira parte da história é focada em apresentar a atuação da Act Up e as suas implicações na rotina dos diversos personagens, o que proporciona uma montagem rápida e cadenciada da história, mas sem nunca perder o foco do desenvolvimento da mensagem do roteiro. Nesse momento sobressaem-se as interpretações de Nahuel Perez Biscayart (hipnotizante e assustadoramente real, como Sean), Arnaud Valois (Nathan, integrante soronegativo da organização, e cuja interpretação imprime o tom sensível e carinhoso, sem preconceitos, com o qual todos deveríamos tratar os portadores da doença), Adéle Haenel (como Sophie, uma das participantes mais enérgicas da Act Up) e Catherine Vinatier (encantadora como Héléne, mãe de um portador da doença e que consegue transmitir, apenas através do olhar, o respeito pela luta dos soropositivos).

A segunda parte da história foca no envolvimento amoroso que nasce entre Sean e Nathan, e a urgência dos dois personagens em vivenciar essa relação com toda a intensidade possível, apesar da condição sorodiscordante de ambos.  O cuidado do diretor em reforçar as cenas que demonstram a diferença entre as condições de saúde dos personagens, sem apelar para o didatismo, serve como uma espécie de alerta sobre o erro que cometemos em, normalmente, marginalizarmos os portadores da doença.

Considerado um dos favoritos para disputar uma indicação para o Oscar 2018, 120 Batimentos por Minuto ficou fora dos filmes pré-selecionados, mas levou o Grande Prêmio do Júri no último Festival de Cannes. Apesar das premiações nem sempre agirem de forma justa com algumas obras, o filme de Campillo merecia o reconhecimento por mostrar, através de um roteiro e de uma direção muito bem engendrados (além das fortes interpretações), um olhar humano sobre a luta da comunidade LGBT, e de como é possível a política ser responsável por grandes atos de amor e humanidade ao próximo. Em meio a um mundo no qual a polarização costuma ser tratada como palavra de ordem (e de guerra), a mensagem transmitida pelo filme mostra que não é tarde para exercitarmos nossa empatia com o próximo. Um grande filme, sem sombra de dúvida.

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Henrique Romanine
Henrique Romanine
Henrique, ou Hique, como é conhecido, sempre quis ser jornalista, desde criança. Após passar pelas Artes Cênicas e Ciências Sociais, não conseguiu escapar da real vocação. Apaixonado por cinema, literatura, música e séries, considera a observação a sua grande aliada. Apesar da cara fechada, não escapa de um bom papo.