Crítica: Entre Irmãs


Chega aos cinemas o mais novo filme nacional, Entre Irmãs. O diretor Breno Silveira (Gonzaga de Pai pra Filho) aposta mais uma vez na temática sertaneja e apresenta um longa-metragem baseado no livro “A Costureira e o Cangaceiro” de Frances de Pontes Peebles. O filme aposta em um drama familiar vivido por duas irmãs, órfãs, com expectativas de vidas diferentes.
A história se passa no Brasil da década de 1930, onde acompanhamos o crescimento das irmãs Emília (Marjorie Estiano) e Luzia (Nanda Costa) que foram criadas pela tia em Taquaritinga do Norte onde trabalham como costureiras. Elas possuem personalidades distintas e o destino faz com que cada uma siga um destino bem diferente uma da outra. Enquanto a sonhadora vai viver na capital, a outra segue sua vida entre os cangaceiros.


O novo filme de Breno Silveira (2 Filhos de Francisco) é mais uma prova de que o diretor tem o total controle ao conduzir histórias que se passam no interior do Brasil. Desta vez, ele precisa retratar a história de duas mulheres nordestinas e consegue captar imagens que compõem a época e o cenário local. Mas os créditos não são somente da direção já que o roteiro de Patrícia Andrade, baseado na obra de Frances de Pontes Peebles , foi bem pensado para não deixar pontas soltas ao adaptar o livro para o cinema. Quem leu livro irá perceber que alguns momentos foram cortados, nada que prejudique o andamento, e outras coisas foram adicionadas para dar mais ritmo de produção cinematográfica.
A edição foi extremamente bem pensada para não tornar Entre Irmãs um filme cansativo, apesar dos 165 min de projeção. Foi utilizada uma montagem intercalando dois núcleos narrativos que apresentam de forma paralela à vida de Emília na capital e de Luzia junto ao bando de Carcará no interior. O texto é sensível, os diálogos são tão intensos e a história fluí e faz com que o espectador mergulhe nas relações entre os moradores na pequena cidade até a vida na capital. Apenas em alguns momentos as cenas se tornam demasiadamente longas, entretanto por se tratar de uma produção da Globo Filmes é bem possível que Entre Irmãs seja exibida em forma de seriado para a televisão e com isso a obra foi construída para ser facilmente dividida em capítulos.


Para compor a história é visível a preocupação da direção de arte que construiu a década de 30 nos mínimos detalhes. A cenografia das casas, ruas e figurinos acompanhados com a fotografia que utiliza filtros em tons sépia e marrom para contrastar com o amarelo e vermelho que representam o clima nordestino, e as cores mais frias que tão o tom mais sóbrio da Capital ajudam a passar ainda mais realismo para o filme.
A escolha dos atores não poderia ser mais acertada. As protagonistas Nanda Costa e Marjorie Estiano possuem carisma, e carregam uma expressividade e endurecimento, quando necessário, das suas personagens. Nanda Costa, como Luzia, apresenta uma mulher forte, decidida e corajosa, mas que no fundo teme o futuro. Já Marjorie tem seus sonhos bem definidos e corre atrás dele custe o que custar,mas sem deixar de ser uma menina inocente e romântica. Júlio Machado, no papel de Carcará, consegue nos mostrar que toda pessoa tem dois lados e que até mesmo o mais cruel dos cangaceiros pode ser dobrado pelo afeto e Romulo Estrela, o Degas, apresenta sua briga interna e a sua complexidade de forma brilhante. Letícia Colin, se destaca como Lindalva trazendo a sua sensibilidade, paixão e busca pela felicidade em uma visão mais contemporânea. O sotaque, de todos, ajudam no paralelo entre interior e a Capital facilitando a adaptação de ambiente e o contrate entre os lugares.


O ano de 2017 trouxe ótimas surpresas para o cinema brasileiro. Entre Irmãs é um épico feminino e intimista, mas que carrega consigo um arco muito mais amplo que se aproveita da turbulenta atmosfera política. A história se passa na década de 30, mas são abordadas questões sociais e políticas que podem ser facilmente adaptados para os dias atuais e que continuam sendo vistas como temas tabus.
Assista o trailer:

 

Tamie Ono Lor
Tamie Ono Lor

Tamie é jornalista e possui especialização em Novas Tecnologias da Comunicação. Ela está sempre querendo absorver um pouco do mundo que a cerca, de preferência com uma câmera na mão. A oriental respira cultura e seu trabalho é também sua diversão.