Sísifo

(Crédito: Gisleine Moreira)

O Festival de Curitiba recebe o ator Gregório Duvivier com a estreia de “Sísifo” que investiga como transpor para o palco a linguagem do gif e dos memes. O espetáculo busca responder a tais perguntas, usando o mito de Sísifo, essencialmente ligado à repetição, como alegoria para levar ao palco a linguagem do gif e do meme. O monólogo será apresenta nos dias 06 e 07 de abril, no Teatro da Reitoria.
Sísifo” é a primeira colaboração cênica entre Gregorio Duvivier e Vinicius Calderoni, com interpretação do primeiro e direção do segundo. Ambos assinam o texto do monólogo, que propõe pensar como a dramaturgia pode dar conta destas formas contemporâneas de comunicação (gif e meme), que, com uma velocidade assustadora, tornam-se hegemônicas no ocidente, moldando a cultura e o comportamento.
Há uma célebre frase de Marx que diz que a história acontece primeiro como tragédia, depois como farsa. Pensando no Brasil contemporâneo, podemos acrescentar, como hipótese, um terceiro desdobramento: a história acontece primeiro como tragédia, depois como farsa e por fim, como meme?
Acompanhar as desventuras de um país em moto perpétuo que repete indefinidamente o DNA de sua desigualdade social num ciclo patológico traz à tona a dúvida: será o Brasil uma nação aprisionada dentro de um gif animado? Estará cada indivíduo desta nação girando na mesma rotação e submetido pessoalmente à mesma lógica (des)ordenadora de todo país?
Desenvolvido neste momento histórico marcado pela associação do ódio à política e a suplantação do calor dos corpos pela inteligência artificial, o espetáculo é também uma resposta à desumanização generalizada deste tempo, em especial no Brasil.
O desprezo pela alteridade e a crescente robotização dos internautas são partes de um mesmo fenômeno, criador de uma nova condição de indivíduo, agora repetidor autômato, incapaz de diferenciar realidade, sonho, meme ou fake news. “Sísifo” busca restabelecer essas fronteiras, assim como reconstruir a sanidade mental no mundo da pós-verdade.
Ao mesmo tempo, o monólogo se apresenta como uma recriação do célebre mito de Sísifo, uma figura condenada a levar uma pedra morro acima, vê-la rolar e recomeçar o trabalho por toda a eternidade. Não é, contudo, uma recriação fiel da história que o mito veicula, mas uma inspiração norteadora, um leitmotiv que se apresenta como fio condutor dentro de uma peça livre, ensaística e essencialmente contemporânea.
A escolha do mito de Sísifo ganha ainda outros contornos quando posta em perspectiva porque parece ser, de algum modo, a matriz do teatro, a arte da repetição infinita, por essência. Albert Camus, em seu célebre ensaio acerca do mito de Sísifo, “Le mythe de Sisyphe”, contraria as expectativas do senso comum e diz que imagina um Sísifo feliz dentro de sua tarefa eterna de carregar a pedra morro acima.
Duvivier e Calderoni concordam e almejam construir, em “Sísifo”, um espetáculo em que a repetição teatral consiga nos fazer sair do ciclo doentio de repetição patológica da realidade, antes que ela nos enlouqueça.
Sísifo” é a primeira colaboração teatral entre Gregorio Duvivier e Vinícius Calderoni, dois artistas que estão entre os expoentes de sua geração. Tanto Gregorio quanto Vinícius tem desenvolvido uma carreira múltipla e bem sucedida, trabalhando em variadas mídias.

Confira nossa conversa com a dupla:

Serviço
Data: 06 e 07/04/2019
Horário: Sábado, 21h e domingo, 19h
Local: Teatro da Reitoria
Esgotado

Tamie Ono Lor
Tamie Ono Lor
Tamie é jornalista e possui especialização em Novas Tecnologias da Comunicação. Ela está sempre querendo absorver um pouco do mundo que a cerca, de preferência com uma câmera na mão. A oriental respira cultura e seu trabalho é também sua diversão.